Mourão diz que opositor do governo no Inpe divulga dados sobre queimadas

Por G1 | Portal Gazetaweb.com     15/09/2020 15h25 - Atualizada às 15/09/2020 16h00

Na semana passada, Mourão já havia reclamado de 'contradição' em números do Inpe que apontam alta nas queimadas

Vice disse que 'alguém' do Inpe faz oposição ao governo

FOTO: Valter Campanato/Agência Brasi

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta terça-feira (15), sem citar nome ou provas, que "alguém" no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que faz "oposição" ao governo do presidente Jair Bolsonaro prioriza a divulgação de dados negativos sobre queimadas.

Mourão, que preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal, deu a declaração ao comentar dados sobre queimadas na Amazônia registrados pelo sistema do Inpe, cujos número são abertos para consulta pública.

Segundo o instituto, as duas primeiras semanas de setembro de 2020 (até dia 14) registraram mais focos de queimadas do que todo mês de setembro de 2019 - 20.486 contra 19.925.

Segundo o vice, o governo está "no campo combatendo isso aí", se referindo às queimadas, e os números "têm que melhorar". Em seguida, indagado sobre uma divergência nos dados sobre queimadas citados por ele na semana passada, Mourão reclamou da divulgação de dados negativos e afirmou que um opositor do governo Bolsonaro dentro do Inpe está agindo para tornar essas informações públicas.

"Eu recebo o relatório toda semana. Até dia 31 de agosto, nós tínhamos 5 mil focos de calor a menos do que 31 de agosto do ano passado, entre janeiro a agosto. Agora, o Inpe não divulga isso. Por quê?", indagou o vice-presidente.

Mourão acrescentou: "Não é o Inpe que está divulgando, é o dr. Darcton [Policarpo Damião] lá, que é o diretor do Inpe, que falou isso? Não. É alguém lá de dentro que faz oposição ao governo. Eu estou deixando muito claro isso aqui. Aí, quando o dado é negativo, o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga".

Questionado sobre quem seria o responsável por divulgar os dados negativos, Mourão disse não saber. Ele declarou não ter suspeitas do nome do suposto opositor do governo dentro do Inpe.

"Eu não sou o diretor do Inpe, então eu não sei [quem é o opositor]."

O Inpe informou que não vai comentar as declarações do vice-presidente. O pesquisador Gilvan Sampaio, responsável pela área do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que monitora as queimadas no Brasil, disse que "jamais faria manipulação de dados". Ele afirmou ainda que o Inpe enviou na sexta-feira (11) um "esclarecimento" ao gabinete de Mourão.

"Contradição"

Na semana passada, Mourão reclamou sobre os dados do Inpe ao ser questionado a respeito de uma reportagem do jornal "O Globo", que mostrou que o instituto detectou que o número de focos de calor registrados na Amazônia entre 1º de janeiro e 9 de setembro deste ano foi o maior para o período desde 2010 - 56,4 mil, alta de 6% em relação ao mesmo período de 2019.

Mourão disse que o Inpe estava "se contradizendo", já que os dados que ele recebeu indicavam redução nas queimadas. Entretanto, os dados citados por Mourão cobriam um período mais curto que o informado na reportagem: entre 1º de janeiro e 31 de agosto.

"Eu vi essa notícia ali que você está comentando e digo, ora, pô, então está em desacordo com o que eles mesmos me mandam", disse Mourão.

Em agosto, o sistema de monitoramento do Inpe indicou que a Amazônia teve 29.307 registros de queimadas. Houve uma queda de cerca de 5,2% em relação a agosto do ano passado, quando foram registrados 30,9 mil focos de calor.

O número, entretanto, foi 12,4% maior que a média histórica registrada para o mês, que é de 26.082 focos, e o segundo maior registrado desde 2010.

As queimadas na Amazônia continuam mesmo depois de um decreto do Ministério do Meio Ambiente (MMA) publicado no dia 16 de julho (e que começou a valer na mesma data), que suspendeu por 120 dias o uso de fogo em ambos os biomas.

O texto diz que a proibição se aplica "no território nacional", apesar de determinar que "ficam autorizadas as queimas controladas em áreas não localizadas na Amazônia Legal e no Pantanal, quando imprescindíveis à realização de práticas agrícolas, desde que autorizadas previamente pelo órgão ambiental estadual".