Motorista de Renan Filho intermediou recebimento de dinheiro em hotel, diz PF

Por Marcelo Amorim | Portal Gazetaweb.com     08/11/2019 06h42 - Atualizada às 08/11/2019 07h30

Ricardo Gomes, conforme investigações, atua como assessor especial do governador Renan Filho; crime envolve repasses de R$ 3 milhões

Foto utilizada pela PF para reconhecer motorista de Renan Filho 

FOTO: Reprodução Rede Sociais

O inquérito da Polícia Federal (PF) que resultou na Ação Cautelar 4427 no Supremo Tribunal Federal (STF) e que apura um complexo esquema de corrupção e pagamento de propina, envolvendo Renan Filho (MDB) como um dos beneficiários, confirmou que Ricardo Rocha, assessor especial e, há anos, homem de confiança do governador, foi intermediário de parte dos R$ 3 milhões que abasteceram a campanha eleitoral em Alagoas, no pleito de 2014. Ricardo, que atuou como motorista de Renan em 2014, teria recebido a propina em Maceió e, também, na cidade do Recife.

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Ricardo José Gomes da Rocha recebe salário de R$ 5.676,80 como assessor especial do governador, conforme Portal da Transparência. As informações foram obtidas pela Polícia Federal em depoimento de Durval Rodrigues da Costa, tomado em Brasília (DF), em 21 de maio. O depoente, que foi assessor do governo de Minas e do ex-deputado federal Aracely de Paula (PR-MG), afirma ser amigo, há duas décadas, do delator Ricardo Saud, executivo do grupo J&F. 

O executivo foi o responsável por revelar os beneficiários do fundo de R$ 40 milhões que alimentou com propina de diversas campanhas, inclusive de Renan Filho, segundo a Polícia Federal. No depoimento, Costa narra um encontro no Recife (PE), sob orientação de Saud, com o publicitário condenado pela Lava Jato André Gustavo Vieira - que admitiu ter operado propinas para o ex-presidente da Petrobras, Aldemir Bendine. 

E afirma que o publicitário revelou que seria necessária a realização de várias viagens para entrega de valor de entorno de R$ 4 milhões na cidade de Maceió, tendo sido combinado que uma mala com R$ 600 mil seria sua primeira entrega em Maceió, antes de outras ações de repasses.

No depoimento, Durval Rodrigues da Costa apontou - em fotos apresentadas pelos investigadores - os rostos de homens de confiança de Renan com quem teria feito contato para operacionalizar tais repasses. Inicialmente, ele apontou Ricardo Santa Ritta como sendo um dos responsáveis por receber o dinheiro, mas, após novo depoimento, o depoente fez um novo reconhecimento e apontou o motorista de Renan Filho como sendo o responsável por coletar o dinheiro no hotel localizado na área nobre de Maceió. 

Diante das informações, em 9 de agosto, os agentes da PF chegaram até Ricardo Rocha, "pessoa de confiança do governador Renan Filho" e que, inclusive, teria atuado como motorista do gestor estadual na campanha de 2014. A comprovação da ligação, diz o texto do inquérito da Polícia Federal, veio por meio de documento do Portal da Transparência de Alagoas, no qual constava Ricardo Rocha como assessor especial lotado na Secretaria de Gabinete Civil, em 2015. 

"(...) No dia 19 de agosto, foi realizado novo Auto de Reconhecimento de Pessoa por Fotografia, em que foram apresentadas fotos das 08 pessoas identificadas a Durval Rodrigues da Costa, tendo este indicado a pessoa da foto 08, o senhor Ricardo José Gomes da Rocha, como sendo o motorista que lhe acompanhou na entrega dos valores. Na oportunidade, Durval Rodrigues descartou a pessoa do senhor Ricardo de Araújo Santa Ritta como sendo o motorista que lhe auxiliou a fazer as entregas em espécie", detalha um trecho do inquérito da Polícia Federal enviado ao Supremo. 

PF aponta vínculo entre Renan Filho e homem que recebeu propina 

FOTO: Reprodução

Ainda conforme as investigações constantes na ação enviada ao relator da Lava Jato, foram realizadas novas diligências para confirmação do vínculo entre Renan Filho e Ricardo Gomes, ficando reforçado o vínculo do passado e, ainda, do presente, visto que, conforme publicação no Diário Oficial, "foram concedidas férias a ele entre junho e julho de 2019, indicando que ainda atua junto ao governador Renan Filho".

Na operação realizada na terça, a PF realizou buscas e apreensão na casa do motorista localizada em Murici, cidade natal da família do governador. Além dele, o motorista vai depor após ter sido intimado na investigação por ordem de Fachin. A investigação da Polícia Federal descobriu também que Ricardo Gomes já havia doado R$ 1.500, 00 para campanha eleitoral de Renan Filho em 2010.

Na ação, consta também que o emissário da J&F contou, com detalhes, sua passagem por Maceió, onde ficou hospedado no Ibis Hotel, localizado na praia de Pajuçara, na ocasião da entrega de um dos repasses da propina. O interlocutor do dinheiro seria José Alves Diniz, ex-assessor de Renan Filho no governo de Alagoas e na Câmara dos Deputados, quando o governador ainda era parlamentar federal. "[Diniz] subiu até o quarto e conferiu os R$ 600.00.00 que estavam na mala", reforça o depoente. 

Na ocasião do encontro, conforme o delator, Diniz disse que seria necessário chamar outra pessoa da confiança de Renan. Esse encontro, diz a PF, serviu para apresentação de Ricardo Rocha ao entregador da propina. Diniz disse que, conforme a polícia, quando não fosse possível ele receber, o dinheiro deveria ser entregue a Ricardo. "Na sequência Ricardo e Diniz saíram do quarto do hotel com a mala", disse Durval Rodrigues da Costa. Na sequência, ele teria retornado a Recife, para apanhar outra mala no aeroporto, com R$ 800 mil, e retornar para Maceió, onde teria voltado a ter contato com Diniz e o "motorista" Ricardo, que foi buscar o dinheiro no hotel, contou as cédulas, e "foi embora". 

Mas antes de sair, ainda segundo o depoimento, Ricardo teria pedido para que, em uma próxima oportunidade, pudesse ir ao Recife buscar a mala de dinheiro que estaria por vir, o que, como consta na ação, teria ocorrido como "bate e volta" entre Maceió e Recife, ocasiões em que o assessor especial do governador teria trazido, em duas viagens, malas com R$ 800 mil e R$ 900 mil. Segundo o emissário da J&F, três carros distintos foram usados pelo motorista de Renan nas viagens em busca das malas de dinheiro no Recife, que somariam aproximadamente R$ 3.835.000,00.

Casa de motorista na terra de Renan Filho foi alvo de busca e apreensão por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF)

FOTO: Reprodução

Datas e rotas batem

Os detalhes das supostas entregas narrados por Durval Rodrigues da Costa batem com as informações obtidas junto a hotéis e companhias aéreas, que atestaram à Polícia Federal as estadias do depoente durante as eleições em cidades onde afirma ter participado do suposto envio do dinheiro a Renan. Junto a hotéis e operadoras aéreas TAM e GOL, a PF checou os caminhos de Durval Rodrigues da Costa, que esteve no Hotel Ibis, em Maceió, entre e 01 e 06 de setembro de 2014, e entre e 12 e 14 de setembro de 2014. No Recife, Costa esteve no Hotel Aconchego, entre 06 e 07 de setembro de 2014, e entre 14 e 15 de setembro de 2014.

Os citados foram procurados pela Gazetaweb para se pronunciarem, mas, até o momento, eles não se manifestaram. 

NOME LONGE DA INVESTIGAÇÃO

Após ter o nome excluído da investigação, Ricardo Santa Ritta disse que buscou a Justiça para evitar maiores prejuízos envolvendo seu nome de forma injusta. "Tomei conhecimento do envolvimento do meu nome na Lava Jato através da imprensa. Mesmo sem ter sido notificado judicialmente nem figurar como parte do processo, procurei a Polícia Federal para me disponibilizar a prestar os esclarecimentos que fossem precisos. Preferi buscar a Justiça para que não ocorresse injustiça", disse ele em nota enviada à redação da Gazetaweb, nessa quinta-feira.